terça-feira, 19 de setembro de 2017

Vigília de oração 15/09/17

Irmãos e irmãs,
Paz e bem!

Dentro da programação da Paróquia pelos 370 anos do Convento e Santuário São Francisco, os irmãos da Fraternidade Chagas se revezaram durante todo o dia em orações na Vigília das 9 às 17:30 horas diante do Santíssimo Sacramento na Igreja das Chagas.

E às 18 horas o Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM encerrou o dia de orações com a celebração da Santa Missa.

Deus seja louvado pelas orações em ação de graças pelos 370 anos do Convento e Santuário São Francisco, bem como pelas necessidades espirituais e materiais da fraternidade.

Deus abençoe aos irmãos que participaram e colaboraram na visita noturna ás dependências da Igreja, à vigília, à oração das Laudes, à Santa missa e dia festivo no dia das Chagas no Santuário.

Por tudo Deus seja louvado!

Fraternalmente,

Maria Nascimento      

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

D. Odilo: Continuem este testemunho franciscano

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Moacir Beggo

 São Paulo (SP) – Para celebrar a festa da Impressão das Chagas de São Francisco e os 370 anos do Convento São Francisco, a Missa em Ação de Graças, neste domingo (17 de setembro), foi presidida pelo Arcebispo de São Paulo, D. Odilo Pedro Cardeal Scherer, às 10h30, no Largo São Francisco, no centro de São Paulo. “Hoje, celebrando aqui, quero aproveitar para agradecer, em nome da Igreja de São Paulo e da Arquidiocese, à comunidade franciscana por toda a contribuição dada à vida e à missão da Igreja em São Paulo. E também quero incentivar e encorajar os freis que hoje estão aqui, que formam a comunidade do Convento e são os continuadores de uma obra que começou há muito tempo e produziu tantos e belos frutos, a continuarem a dar esse testemunho  franciscano, tão rico e belo, para a cidade de São Paulo”, disse D. Odilo, que foi acolhido pelo Guardião dos 370 anos, Frei Mário Tagliari.

chagas_170917_7O Vigário Provincial, Frei César Külkamp, representando a Província da Imaculada Conceição e o Ministro Provincial Frei Fidêncio Vanboemmel, leu a mensagem do Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, Frei Michael Perry, que escreveu: “Francisco de Assis, continuamente, nos interpela a reconstruir a Igreja e a sociedade diante dos tantos desafios e exigências da presença de vocês nesta comunidade e os convido, nestes 370 anos, a renovar suas forças na missão que o Senhor lhes confiou. O trabalho é árduo e os desafios são muitos, contudo, é preciso recomeçar sempre. Recomeçar porque até agora pouco ou nada fizemos, nos recorda o Seráfico Pai”.

Dom Odilo teve como concelebrantes, além de Frei César, o Reitor e Pároco Frei Alvaci Mendes da Luz; o Guardião do Convento, Frei Mário Tagliari; o Definidor Provincial, Frei Gustavo Medella, o Pároco do Pari, Frei Germano Guesser; e sacerdotes da Fraternidade. Também estavam presentes os leigos franciscanos da OFS, Jufra, religiosos e religiosas da cidade e região e os fiéis deste Santuário.

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O Cardeal de São Paulo recordou o tempo de fundação do Convento e do pioneirismo dos franciscanos, que formam uma das mais antigas comunidades religiosas masculinas em São Paulo, junto com os jesuítas, beneditinos e carmelitas. “Este aniversário lembra, portanto, toda a contribuição da comunidade franciscana para a vida e a missão da Igreja em São Paulo ao longo dos 370 anos”, disse D. Odilo, recordando também os vários franciscanos que foram bispos e arcebispos de São Paulo, entre os quais os seus predecessores, Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e o Cardeal Dom Cláudio Hummes.

“Hoje, celebrando aqui, quero aproveitar para agradecer, em nome da Igreja de São Paulo e da Arquidiocese, à comunidade franciscana por toda a contribuição dada à vida e à missão da Igreja em São Paulo. E também quero incentivar e encorajar os freis que hoje estão aqui, que formam a comunidade do Convento e são os continuadores de uma obra que começou há muito tempo e produziu tantos e belos frutos, a continuarem a dar esse testemunho  franciscano, tão rico e belo, para a cidade de São Paulo, que se tornou imensa e precisa muito justamente deste testemunho e desta presença franciscana”, acrescentou.

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A FESTA DAS CHAGAS

Dom Odilo recordou que a festa das Chagas de São Francisco nos remete ao ano de 1224 quando, no Monte Alverne, distante de Assis, Francisco vivia uma profunda crise. “Francisco viveu, digamos assim, uma profunda crise de busca, de angústia, interrogando-se sobre a decisão que tinha tomado e se era mesmo este caminho. Os santos podem nos parecer pessoas que tomam decisões sem muitos problemas. Mas ao contrário disso, os santos tomam decisões sérias na vida e depois pagam caro por elas. Podem ler na vida de todos os santos e mártires. Mesmo os santos místicos. Pagam caro pela decisão de abraçar inteiramente a graça de Deus. E, por isso, eles também passam por momentos de angústia, de incertezas, e buscam a luz de Deus e a resposta de Deus para o passo a ser dado. Não foi diferente com São Francisco”, explicou o Cardeal.

“Foi assim que rezando nas montanhas centrais da Itália, ele teve este momento de grande experiência mística de resposta de Deus. Resposta de Deus, de Jesus Cristo, para a sua busca. E assim apareceram as chagas de Cristo em seu corpo. Francisco, em vez de ficar apavorado, passou a viver muito serenamente, compreendendo que era a resposta de Deus”, observou D. Odilo.

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Segundo o Arcebispo, as chagas de Cristo no corpo de Francisco era  sua identificação sempre mais profunda com Cristo e com o Cristo sofredor, obediente ao Pai, com Cristo expressão da máxima misericórdia de Deus pela humanidade, que se entregou inteiramente por amor à humanidade ao ponto de se deixar pregar na cruz. “As chagas lembram a paixão de Jesus, o momento máximo de sofrimento de Jesus, mas ao mesmo tempo o momento máximo da manifestação do amor de Deus. Tanto Deus amou o mundo que entregou seu filho único, entregou até o extremo, para que assim todo aquele que Nele crê – todo aquele que olhar para Ele, como nós recordamos há poucos dias na festa da Exaltação da Cruz, todo aquele que olhar para Ele com fé, como fez o ladrão naquela hora no Calvárion- tenha a vida, tenha a graça, tenha a misericórdia. Pois bem, Francisco recebendo as chagas, entendeu que era esta a resposta de Deus, a manifestação sempre maior e a identificação com Jesus Cristo e com o desígnio de Deus se manifestando nele”, disse.

“Por isso, a festa das Chagas lembra este momento, e que depois se tornou constante na vida de São Francisco, da sua sempre maior ‘cristificação’, que é a identificação de Francisco com Jesus. O homem mais ‘cristificado’ que se conheceu. ‘Cristificado’ no sentido de ser mais semelhante a Jesus, através de sua vida, de suas atitudes, de suas virtudes, o homem que foi para os outros uma imagem de Jesus Cristo”, enfatizou.

A partir dos Estigmas, segundo o Cardeal, Francisco pôde viver plenamente entregue à graça de Deus. “Pôde viver plenamente entregue à misericórdia de Deus. Não mais pretendendo nada de si e de suas capacidades humanas. O que contava, agora, para ele era ser todo de Cristo, ser todo de Deus, para assim ser todo dos irmãos, ser todo da humanidade, ser tudo da obra de Deus. É por isso que ele expressa de maneira tão bonita quando diz ‘Meu Deus e meu Tudo’. Tudo o resto é pequeno diante deste Grande Bem e Supremo Bem, o Sumo Bem, este Bem que Jesus diz que não se pode nunca perder e nem trocar por nenhum outro.  É também isso que São Francisco pôde expressar de maneira bonita quando ele faz justamente este cântico bonito de louvor das criaturas: “Louvado sejas, meu Senhor…” Só lembrando que esse ‘Louvados sejas, Meu Senhor!’ começou a partir do momento em que Francisco, todo desapegado de si, abraçou o leproso e foi capaz de se tornar irmão daquele irmão que lhe causava asco, do qual ele queria se afastar, do qual ele se aproximou, beijou e abraçou”, disse, recordando que a partir desta manifestação de Deus, Francisco é tudo de Deus, por isso tudo dos irmãos. “Acho que São Francisco nos ensina uma coisa muito importante aqui: quanto mais somos de Deus, mais somos dos outros também. Mais somos capazes de ser de todos, ser irmão dos outros. Quanto mais somos centrados em nós, no nosso egoísmo, nos nossos projetos, nos nossos planos, menos somos dos outros”, ensinou.

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Dom Odilo continuou as reflexões com as leituras do dia, e quando referiu-se à Carta de São Paulo aos Gálatas, lembrou que São Paulo dizia: “Eu trago na minha carne as marcas de Cristo”. “Em outro lugar, ele vai dizer sou todo de Cristo. São Francisco, de modo semelhante, diz meu viver é Cristo. Todo o resto não precisa. Todo o resto passa. São Francisco também pôde dizer: trago em minha carne as marcas de Cristo. Da cruz de Cristo, da paixão de Cristo”, disse D. Odilo, lembrando que todos nós trazemos na nossa vida as marcas de Cristo quando fomos batizados.

“Nós também trazemos as marcas de Cristo e somos convidados, como Francisco, a fazer este caminho de maior identificação, de sintonia com Cristo, para sermos inteiramente dele e também inteiramente da humanidade. Ser de Jesus Cristo. Francisco fez esta experiência profunda e, portanto, não o distanciou dos irmãos, pelo contrário, aproximou-os mais ainda. Assim como Francisco, também hoje somos convidados a olhar para Jesus Cristo e dizer: Ele me amou, ele por mim se entregou na cruz, agora o meu viver é dele. Vivo por Ele!”

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MENSAGEM DO MINISTRO GERAL

Vigário Provincial, Frei César Külkamp, leu a mensagem enviada pelo Ministro Geral por ocasião dos 370 anos do Convento.

Prefiro uma Igreja acidentada, ferida, enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. (Do Papa Francisco, na Evangelli Gaudium)

Revdo. Sr. Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Cardeal Scherer

Queridos irmãos,

Ministro Provincial, Frei Fidêncio Vanboemmel,

Guardião, Frei Mário Tagliari,

Reitor, Frei Alvaci Mendes da Luz,

e demais confrades residentes, amigos e fiéis da Fraternidade e Convento São Francisco de São Paulo,

Paz e bem!

Há exatos 370 anos, nossos irmãos fundaram o Convento São Francisco no coração do que é hoje a maior metrópole da América do Sul. Enfrentaram os desafios das novas realidades que se apresentavam, guiados pelo Ministro Geral de nossa Ordem, o Espírito Santo. Esses santos homens deixaram a vocês o legado de uma bela história e a responsabilidade de serem nos tempos atuais a vivência de uma Igreja que vai ao encontro  do outro, dos pobres, dos que precisam.

Francisco de Assis, continuamente, nos interpela a reconstruir a Igreja e a sociedade diante dos tantos desafios e exigências da presença de vocês nesta comunidade e os convido nestes 370 anos a renovar suas forças na missão  que o Senhor lhes confiou. O trabalho é árduo e os desafios são muitos, contudo, é preciso recomeçar sempre. Recomeçar porque até agora pouco ou nada fizemos, nos recorda o Seráfico Pai.

Ao Sr. Arcebispo e a Igreja de São Paulo, motivados pelo mesmo Espírito que movia  o Pobrezinho de Assis, prometam obediência e reverência como sinal de unidade. Sejam irmãos junto ao clero e ao povo desta grande cidade e façam deste Convento uma casa de acolhida, um lugar onde todos se sintam abraçados e cuidados pela misericórdia de Deus.

Enfim, a todos vocês que fazem parte da história do Convento São Francisco, convido a não se esquecerem da mensagem do Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: A Igreja em saída é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr à parte a ansiedade para olhar nos olhos e escutar ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho. Às vezes é como o pai do filho pródigo que continua com as portas abertas para que quando este voltar possa entrar sem dificuldade.

Que este Convento e seus frades continuem sendo na cidade de São Paulo sinais constantes da Igreja que nos propomos ser. De minha parte, agradeço aos que passaram, aos presentes e aos vindouros e peço as bênçãos de Deus a cada um e a intercessão de São Francisco e Santa Clara de Assis.

Com estima e gratidão,

Frei Michael Anthony Perry, Ministro Geral e Servo

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AGRADECIMENTOS

O reitor e pároco do Santuário São Francisco, Frei Alvaci Mendes da Luz, fez os agradecimentos. “A gente precisa agradecer muito àqueles que fazem e fizeram a história dessa Casa, desse Convento. Agradecer ao Cardeal que aceitou prontamente o convite de celebrar essa Missa de Ação de Graças, agradecer aos confrades, agradecer ao Ministro Provincial, Frei Fidêncio Vanboemmel, na pessoa de Frei César Külkamp, o Vigário Provincial, todas as pastorais e movimentos deste Santuário e Igreja Paroquial, que tem vida neste centro de São Paulo, que movimenta e faz história”, disse o frade.

Frei Alvaci fez um agradecimento especial também. “Quero agradecer às pessoas que nos ajudaram na campanha pela pintura da fachada desta igreja. Obrigado à Igreja de São Paulo por acolher os franciscanos. E como dizem os franciscanos, Paz e bem!”, desejou.

Representando a Pascom, Rafael Faria entregou a D. Odilo um exemplar do livro sobre a história do Convento. “E que este aniversário dos 370 anos seja mais um belo momento desse ‘fazer história’. Que o carisma franciscano, que é sempre atual, porque é o carisma do Evangelho, é coração do Evangelho, possa ajudar a Igreja se renovar  nesse tempo que precisa muito!”, disse D. Odilo, dando a bênção final.






Participação da Fraternidade Chagas na Festa das Chagas







370 anos do Convento e Santuário São Francisco (visitação às duas igrejas e ao cemitério), com o Frei Alvaci Mendes da Luz 14.09.17

Visitando a Igreja das Chagas do Sepháfico Pai São Francisco da Venerável Ordem Terceira e o Convento e o Santuário São Francisco, incluindo o cemitério.

Fotos das fachadas, do interior da igreja com as pessoas a partir do alto (do coro), detalhes do altar com São Francisco e Cristo, Frei Alvaci Mendes da Luz contando a história das igrejas, cemitério, o gato Chico, uma parede original de taipa e a exposição de fotos sobre o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Impressão das Chagas de São Francisco: Os estigmas de Francisco de Assis e o segredo da suprema felicidade

Dom Laurence Freeman, OSB (*)

Junho de 1998, Festa de Corpus Christi
Queridos amigos:

Sessenta e cinco meditantes de vários continentes se reuniram recentemente em um Retiro silencioso de uma semana, no Monte Alverne, o lugar de peregrinação na Toscana,  onde São Francisco de Assis (1182-1226) recebeu os estigmas em 1224, dois anos antes de sua morte. Passamos a noite do primeiro dia de viagem ao pé do monte e logo cedo, no ar fresco e ensolarado da manhã seguinte, fizemos vagarosamente e em silêncio o caminho da forte subida que leva ao santuário.

Paramos na Capela dos Pássaros para escutar o sublime canto que recebeu Francisco e seus três companheiros quando ali chegaram e ele se viu cercado alegremente pelos pássaros, confirmando que tinha vindo ao lugar certo. Francisco fora ao monte para um jejum de quarenta dias em preparação à chegada da Irmã Morte cuja rápida aproximação pressentia.

Depois de nos alojarmos na simples Casa Franciscana de Retiros, e começarmos a sentir o ambiente desse lugar intenso e sagrado, concordamos em nos fazer uma pergunta preliminar simples. Por que tínhamos ido para lá? Como a maioria das perguntas simples, ela foi uma chave que abriu muitas portas. Afinal, no silêncio em que estávamos então entrando, a pergunta levou a outras perguntas igualmente básicas, relacionadas à consciência e à vida espiritual, que nos levaram ao limite do pensamento e, assim, à luz de Deus dentro de nós: Quem sou eu? Quem é Deus?

A história da experiência de oração de Francisco no lugar sagrado do Monte Alverne nos enriqueceu, desafiou e guiou dia após dia. Ficamos sabendo como ele se aprofundou cada vez mais na solidão, durante sua estadia ali, alternadamente fustigado por seus demônios interiores e consolado por visitas angélicas. Nisto, ele perseverou até que chegou à experiência que culminou na união com a humanidade de Cristo, o que tornou esse lugar tão sagrado, não somente para seus seguidores franciscanos, mas também de grande significado para toda a tradição cristã de oração.

Na noite de 14 de setembro, Festa da Santa Cruz, seu fiel amigo e companheiro, Frei Leão, desobedeceu às instruções de Francisco e penetrou na solidão de sua reclusão para ver como ele estava. À luz do luar, Frei Leão viu Francisco de joelhos em oração, repetindo com todo o fervor as perguntas que se encontram no centro de toda oração cristã: “Quem és tu, meu doce Deus… Quem sou eu, teu servo inútil?”“E somente estas palavras repetiu e nada mais disse” – conta-nos São Boaventura, seu biógrafo. Frei Leão viu o fogo que descia sobre a cabeça de Francisco, envolvendo-o por muito tempo.

Quando Francisco afinal o notou, Frei Leão perguntou o que significava tudo aquilo. Francisco respondeu que ele tinha recebido duas luzes para a sua alma; o conhecimento e a compreensão de si mesmo, e o conhecimento e a compreensão de Deus. Nesta oração no fogo, Deus lhe pediu três dádivas e ele buscou em sua pobreza até encontrar uma bola de ouro que ofereceu três vezes: a doação dos seus votos.

Após dizer a Frei Leão que não o espionasse mais, Francisco dirigiu-se à Bíblia para saber a que estaria sendo preparado – e em cada consulta ele foi encaminhado para a Paixão de Jesus Cristo. Retornou então à oração solitária, “tendo muita consolação na contemplação”. Sentiu-se depois impelido a pedir não somente a graça de sentir a dor de Cristo, mas também o amor que possibilitou a Cristo suportá-la por nós. Começou a contemplar a Paixão com profunda devoção até que “se transformou completamente em Jesus por meio do amor e da compaixão”.

Na manhã seguinte, ele viu um serafim aproximar-se na forma de Jesus Crucificado. Ele se sentiu repleto, simultaneamente, de medo e alegria, deslumbramento e tristeza. E foi-lhe dada a percepção de que sua transformação em Cristo não aconteceria por sofrimento físico, mas “por uma elevação da mente” – a transformação da consciência em amor. Entretanto, o sinal desta transformação seria a marca permanente das cinco chagas divinas de Cristo no corpo de Francisco. Pouco depois, Francisco deixou o Monte Alverne e retornou à cidade de Assis, para morrer “com a chama do amor divino em seu coração e as marcas da Paixão em sua carne”. Com humildade, perguntou a seus irmãos se deveria tornar pública a informação sobre seus estigmas, e convenceu-se de que deveria quando lhe disseram que a experiência deveria ter um significado não somente para ele, mas também para os outros.

MISTÉRIO E SIGNIFICADO

Houve diversas reações entre nós ao ouvir esta história. O elemento de ligação de todas foi um reverente senso de mistério – a experiência que não pode ser aplicada adequadamente pela razão – e a necessidade de expressar reverência pela busca de um significado para a experiência. As experiências mais profundas das histórias de nossas vidas também merecem a mesma reverência e impelem à busca de significados. E o significado não aparece com rapidez ou facilmente.

Não dar o tempo ou a quietude de atenção necessários, para tornar plenamente consciente o que nos acontece, é uma característica de nossa época, veloz e impaciente. Tempo e atenção são necessários se não quisermos tratar a vida superficialmente.

A superficialidade desperdiça o precioso sentido do sagrado que dá profundidade e propósito a nossos encontros com a alegria e o sofrimento intensos, freqüentemente cheios de perplexidade. Mistérios como esses são dons valiosos, realidades que exigem tempo.

Quanto à experiência de Francisco, precisávamos, em primeiro lugar, perguntar: o que significava e para quem? Para o próprio Francisco, para a Igreja, para nós, hoje? Talvez o significado para Francisco fosse de foro íntimo e inacessível, só dele mesmo – este é o significado solitário e único de toda experiência única. Podemos supor, pelo que sabemos de Francisco, que os seus estigmas simbolizam um alto grau de realização da sua união com a pessoa do Cristo Crucificado e Ressuscitado, a quem amou com tanta persistência e paixão.

O desejo que consome os místicos – e amantes – é sempre o de despojar-se de sua identidade egocêntrica e unir-se de forma permanente com o Bem- Amado, em uma maneira de ser em que o “eu” e o ‘tu”, apesar de não obliterados, deixam de ser entidades fixas. “Não sou mais eu quem vive; mas é o Cristo quem vive em mim”. O abismo da separação (das individualidades) se fecha quando transcendemos o ego. “Uma consumação a ser desejada devotamente”, mas algo que, ao mesmo tempo, causa horror ao ego e doloroso pressentimento. À diferença de Francisco, a maioria de nós recua, sistematicamente, no exato momento em que a satisfação do nosso desejo de plena união nos é oferecido.

A vida de Francisco foi uma ascensão, freqüentemente uma peregrinação vertiginosa em direção a esta união de sua humanidade com a humanidade de Cristo. Ao contrário dos seus seguidores, que o veneravam como santo, Francisco via a história de sua própria vida repleta de inúmeros fracassos e retrocessos, provocados por sua natureza pecaminosa. Como acontece com a maioria dos fundadores, ele morreu com um sentimento de fracasso.

Ao mesmo tempo, ele também sentia e manifestava uma alegria cada vez mais intensa, o que seria uma prova, em nível mais profundo de percepção, de que sua evolução era constante. A coexistência, a mistura de alegria e sofrimento, dor e paz, amor e solidão, tornaram-se, com crescente clareza, o tema unificador – se não, mesmo, a experiência – do nosso Retiro. Até o clima variável durante a semana foi expressão disso, ao passarmos de dias fechados com  nevoeiro úmido e frio para outros dias de céu claro, com sol quente e panoramas abertos.

Independentemente do que possa ter significado a mais para Francisco, por causa da extinção, pelo amor, da sua identidade separada, os estigmas selaram também sua vocação e sua missão na Igreja. A experiência de Francisco influenciou decisivamente o curso da Espiritualidade cristã. Sua união com Cristo, ocorrida no Monte Alverne, iniciou uma nova era e uma mudança na consciência cristã. Ficou a cargo de São Boaventura – pois Francisco não era teólogo – formular a devoção ao Jesus histórico, especialmente a que focalizou a Cruz – que abriu uma nova dimensão no pensamento e no sentimento cristãos.

E o que podem os estigmas significar para nós? É o que nos perguntávamos, enquanto, dia após dia, a intensidade peculiar do Monte Alverne nos convidava a questionar mais seriamente quem era Deus e quem éramos nós. Lembrávamos o que Francisco viu na grande claridade de sua experiência incandescente: que o conhecimento de Deus e o conhecimento de si mesmo são inseparáveis e que, uma vez que se fundem, somos transformados para sempre. Indagávamos o que seria “a bola dourada” em nosso estilo de vida, com a qual faríamos a dádiva de nós mesmos a Deus.

Vimos que se Francisco podia sentir simultaneamente as emoções conflitantes de medo, alegria, admiração e sofrimento, nós também deveríamos estar dispostos a parar de nos agarrar a um único estado mental dominante, com o qual ficamos habitualmente obcecados – não deveríamos nos identificar com nossa ira, medo ou desejo, por exemplo. E que precisamos aprender a nos desapegar de todos os nossos sentimentos para estarmos abertos ao mistério de Deus em toda a extensão da nossa humanidade.

Vimos como, em sua simplicidade, Francisco ilustrou a dimensão trágica da vida em que alegria e sofrimento são parceiros inseparáveis. Questionamos a fixação da nossa cultura na busca da felicidade, que nega a nossa inescapável condição de mortalidade e nossas imperfeições essenciais. No sinal misterioso da união de Francisco com Cristo, pudemos sentir como o desejo de união, que é a mais profunda de todas as nossas aspirações, só pode acontecer com pureza de coração e intensa entrega. A união acontece quando ela é o nosso único desejo: quando o drama habitual de desejos conflitantes, que nos fazem repetir padrões antigos de fracassos, tiver sido radicalmente simplificado.

Quando lemos que Francisco, ao deixar o Monte Alverne montado em uma mula, por causa da dor que sentia em seus ferimentos, começou – na última fase de sua vida – a curar os sofrimentos dos outros, compreendemos que nenhuma experiência identificável como tal pode ser considerada definitiva. Estamos sempre seguindo adiante. “Os anjos ficam parados – diz um ditado judeu – o Santo está sempre em movimento”.

Finalmente, indagando quem seria realmente Francisco, vimos como ele se tornou um amigo da humanidade, um dos grandes boddhisatvas cristãos. A escolha de Assis pelo Papa João Paulo II como local para o encontro histórico da oração ecumênica em 1988, reunindo dirigentes religiosos de todas as crenças, foi inspirada pela amizade universal a que se dedicou Francisco. Os santos, assim nos parece, não são somente para ser venerados como paradigmas de excelência, mas devemos nos aproximar deles como amigos para a jornada espiritual, com a humildade de Cristo, superando o paradoxo de uma intimidade universal que parece impossível sem eles.

FERIDOS QUE CURAM

Depois de receber os estigmas de Cristo, Francisco ficou marcado como a expressão viva do arquétipo de santo, sábio ou xamã. Mas no sentido cristão, e de forma ainda mais expressiva, ele personifica o ferido que cura. Numa ocasião em que Frei Rufino tocou Francisco e colocou com curiosidade sua mão na chaga aberta do lado, Francisco se encolheu de dor.

Como ele, nós também às vezes invadimos as feridas íntimas de outros – a mídia atual ganha muito com isto. Nós sabemos como os nossos ferimentos mais profundos podem gritar de dor quando um pensamento, uma palavra ou ação desatenciosa toca neles.

O toque é um tema dominante na vida espiritual de Francisco. Ele tem um contato alegre com o mundo material e suas múltiplas e esplendorosas belezas. Ele é constantemente mostrado tocando ou sendo tocado por criaturas, humanas e outras. Muitos dos que o tocaram no fim da vida sentiram-se curados simplesmente por fazê-lo. Sua grande singularidade demonstra a espécie superior de sanidade que nos advém quando somos (mesmo que só um pouco)  tocados por Deus. As chagas de Francisco foram toques de Deus que o mudaram de forma irreversível.

Somos feridos mais profunda e dolorosamente, não por acidentes que acontecem – não importa quão trágicos sejam – mas pelo amor. Como todos aqueles que sofreram sabem, todo sofrimento é suportável – ou não suportável – proporcionalmente ao grau de amor que conseguimos manter vivo. Entretanto, o próprio amor é o maior ferimento que a humanidade é capaz de infligir. Existe o doce ferimento do amor, que pode transformar a personalidade e nossos poderes de percepção. Pode elevar-nos de um mundo preto-e-branco, unidimensionado, para um universo multicolorido não sonhado e de perspectivas cambiantes.

E existe o ferimento amargo, quando o amor é retirado, quando sua expressão emocional murcha, quando é inexistente ou traído. Ou quando morre a pessoa que amamos. Como nos estava ensinando o tema emergente do Retiro, abrir-se ao doce ferimento (do amor) como Francisco se abriu às “alegrias da contemplação”, também nos expõe ao lado cortante da espada, à realidade do amor, ao ferimento amargo e à dor da perda irremediável.

O ferimento é uma experiência rara de permanência. A maioria das coisas que acontece não dura. Necessitamos, portanto, distinguir entre ferimentos e golpes, as frustrações e os desapontamentos que acontecem na vida e que podem ser amargamente dolorosas, mas que, com o tempo, podem até desaparecer da memória: o fracasso de um exame, perdas financeiras, desencontros. De tudo isso nós nos recuperamos. Entretanto, os ferimentos nos marcam para sempre e alteram a química mais profunda de nossa percepção e o próprio funcionamento de nossa identidade. Um ferimento significa que nada será mais como antes. O tempo conserta os golpes, mas não cura ferimentos profundos. Somente a eternidade, a imersão do momento presente nas águas da presença de Deus, pode curar um ferimento. Assim como o ferimento da morte de Cristo só pode ser curado pela Ressurreição, quando Ele mergulhou nas escuras profundezas de sua divindade.

OS FERIMENTOS AO PASSAR DO TEMPO

Claro que os sentimentos e os significados associados aos ferimentos vão mudando com o tempo. Todo significado surge, dentro do seu contexto, na leitura do que estamos analisando. Não podemos ver o significado da experiência de Francisco no Monte Alverne fora do contexto da sua própria vida e da sua cultura histórica. O significado dos nossos próprios ferimentos – que, com freqüência, no princípio nos parecem horrorosamente sem significado – começa a surgir à medida que os vamos vivendo em relação com outros eventos e esquemas de nossa vida.

Isto quando o sofrimento nos permite continuar conscientes o suficiente para proceder assim. Mas ferimentos nunca podem ser eliminados, assim como um fim ou um princípio jamais podem ser repetidos. São parte da nossa história e, nesta história, não obstante pareça um átomo insignificante no universo, é uma partícula única e indispensável na constituição do cosmos. Nossos ferimentos estão, portanto, entre as forças mais sagradas que dão forma à nossa existência e fazem o próprio mundo ser como é.

É importante evitar o sentimentalismo ou o excesso de otimismo com referência ao nosso sofrimento, porque ambos podem inibir a esperança. Ser ferido é perigoso. Pode aleijar ou até destruir a personalidade. Pode nos empurrar da borda para dentro do desespero ou nos entrincheirar em um isolamento medroso e cínico, além de amargurar involuntariamente o nosso espírito. Até pior – e as histórias de famílias e nações estão repletas de exemplos: os ferimentos podem nos transformar em inimigos da humanidade, demônios cheios de ódio contra Deus, cruéis e selvagens para com os outros.

“O ferimento aceito dentro da maneira de ser do mundo” – como nos diz São Paulo – leva-nos à morte. Nesse estado de morte somos esvaziados de toda a compaixão, coma os campos nazistas de extermínio – dirigidos por pessoas comuns não tão diferentes de nós mesmos – não nos deixam esquecer. E podemos nos tornar especialmente vingativos com os que são mais fracos do que nós e estão mais feridos. Podemos nos transformar em feridos que ferem. Ou feridos que curam. Como Francisco e seu modelo, Cristo.

Como aconteceu com Queirão no mito grego. Filho do deus Cronos e da ninfa terrestre Fílira, Queirão teve a infelicidade de nascer como um centauro, meio humano – a parte superior do seu corpo – e meio cavalo. Quando sua mãe o viu, ao nascer, ficou tão revoltada que conseguiu ser transformada em um limoeiro para que não pudesse amamentá-lo. Assim, seu primeiro ferimento foi a rejeição. Mas Apolo o adotou – pelo menos em sua parte superior – e lhe deu treinamento para aperfeiçoar-se em todas as artes e no conhecimento. Queirão transformou-se em um grande mestre e mentor para muitos dos maiores heróis gregos, incluindo o próprio Héracles. Um dia, em uma festa com centauros que se desgovernaram, Héracles teve que lançar uma flecha envenenada para acabar com a desordem. Acidentalmente, a flecha atingiu Queirão. Sendo filho de um deus – logo, imortal – a flecha não poderia matá-lo, mas deixou-o em agonia permanente e amargurada.

Sua vida mudou. Viu-se forçado a retirar-se para uma montanha para cuidar de sua chaga incurável. Desta maneira, Queirão transformou-se em perito nas artes da cura e dos poderes medicinais da natureza. Com a aproximação dos que sofriam e vinham procurá-lo, nele também cresceu a compaixão por eles. Não eram mais os famosos e poderosos que vinham até ele, mas os pobres e esquecidos. A todos, Queirão curava com o poder do seu recém-desenvolvido conhecimento, e eles partiam agradecidos, mas se perguntavam por que ele, que curava os outros, não podia curar a si próprio.

Héracles (o que feriu curando), durante outra de suas aventuras, encontrou uma saída para Queirão. Conseguiu que Zeus concordasse em libertar Prometeu do seu tormento se fosse encontrado um imortal que se dispusesse a dispensar sua imortalidade e a morrer. Queirão aceitou a proposta e, ao aceitar a mortalidade e morrer, disse sim para o que realmente era. Ele assim iniciou um novo tipo de heroísmo, deixando de lado suas tentativas inúteis de curar seus próprios ferimentos, de ser o seu próprio redentor. A morte não tinha grande atração ou glória, mas continha uma verdade sombria e profunda que não poderia ser expressa nem por todos os poderes de Apolo.

Ele morreu e, como todos os mortais, desceu ao mundo interior. Atravessou o Estige, fronteira entre a consciência dos vivos e dos mortos; pagou a sua moeda ao barqueiro sem rosto, atravessou os campos cinzentos de Asfodel – onde os mortos à espera do julgamento piavam como morcegos – e, diante dos que reinavam no Hades, aguardou o seu julgamento. O mito nos conta que ele permaneceu ali por nove dias obscuros. Zeus então o salvou do Hades e o alçou acima da terra para fazê-lo para sempre uma constelação no céu: um ensinamento escrito no céu para todos lerem.

E onde fordes, proclamai que o Reino dos Céus
está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os
mortos, limpai os leprosos, expulsai os demônios.
De graça recebestes, de graça dai (Mt 10, 7-8)

Jesus, sempre consciente da sua morte iminente, e ferido pela rejeição e pelos mal-entendidos, ficou conhecido entre os seus contemporâneos, sobretudo, como aquele que curava. O convite que faz aos seus seguidores, para imitarem o que fazia quando curava o sofrimento humano, confere dignidade aos que estão feridos. Enquanto pensarmos que são os sadios que curam, estaremos subscrevendo o culto do poder. Nossa percepção da realidade ficará distorcida pela busca obsessiva da felicidade e pela fuga do sofrimento, empreendidas pelo ego.

O segredo do Monte Alverne não é, afinal, tão esotérico. Ele abre uma visão de suprema felicidade humana – a ventura de conhecermos a nós mesmos e a Deus, no amor de Cristo. Nele podemos também acreditar, porque não foge da realidade do sofrimento – do qual não há como escapar. A sabedoria de Francisco, assim como a sabedoria de Jesus, nos ensinam que a nossa vulnerabilidade ao sofrimento não é um impedimento para a prestação de serviços amorosos aos outros. E mesmo condição para que possamos aliviar o sofrimento do próximo.

Enquanto perseguirmos a nossa própria felicidade como a primeira das prioridades, nós faremos isso, de forma consciente ou não, à custa do bem-estar de outrem. Mas, se aliviarmos a dor do outro, encontraremos a plenitude do ser para a qual fomos criados. Curar – enquanto nós mesmos estamos feridos – não está, no entanto, no campo da experiência do ego.

Aquele que não toma a sua cruz e me segue
não é digno de mim. Aquele que procura a si mesmo
acabará por se perder e quem se esquecer de si mesmo,
por amor de mim, acabará por encontrar-se
(Mt 10,38-39).

Pode-se compreender melhor o significado da experiência de Francisco, no Monte Alverne, no contexto da sua oração, assim como nossa vivência consciente, a partir desses paradoxos do espírito, dependerá da profundidade da nossa oração. Na oração de Francisco, a ênfase não está essencialmente nas visões, revelações e milagres que enchem sua biografia. A meditação logo nos ensina que não precisamos dessas coisas e não devemos procurar tais experiências.

Até para Francisco elas não foram a substância do seu relacionamento com Deus, como o mostra a sua vida em comunidade e a sua insistência no valor supremo da pobreza e da humildade. Mais significativa é a sua contínua perseverança no aprofundamento da oração. Ele retornava freqüentemente a períodos de solidão e aprofundava a sua aceitação de todo o espectro da realidade, o que o tornou tão profundamente sensível à presença e à atividade de Deus em tudo, em toda manifestação da natureza, como o mostra o seu Cântico das Criaturas. “Despertado por todas as coisas para o amor de Deus… nas coisas belas ele encontrava a própria beleza”.

Vistos através deste prisma, o amor de Francisco pela criação e a ênfase de São João da Cruz sobre o desapego a todas as criaturas parecem complementares, em vez de opostos inconciliáveis, como poderia parecer. Vemos desapego também em Francisco, e celebração e louvor em João da Cruz. Onde se vive a plena verdade, os opostos coexistem. Não apenas alegria e sofrimento. Mas também a vida e a morte. Quando o percebemos, sabemos o que a vulnerabilidade de Cristo ao sofrimento proclama: a vida não é negada pela morte, mas consiste no ciclo de morte e renascimento. Este ciclo vai levar, na plenitude dos tempos, ao estado sem morte que Francisco suplicou lhe fosse dado experimentar antes da sua união com Cristo no Monte Alverne:

E como continuasse neste propósito, um anjo
lhe apareceu em grande glória, trazendo
um cálice na mão esquerda e uma flecha
na mão direita. Enquanto Francisco se admirava
com esta visão, o anjo atravessou o cálice
uma vez com sua flecha, e imediatamente Francisco
ouviu uma melodia tão doce que sua alma se encheu
de encantamento – o que fez que ele ficasse
insensível a toda sensação do corpo. Como
posteriormente contou a seus companheiros,
caso o anjo passasse novamente a flecha pelo cálice, tinha dúvidas
se a sua alma não teria deixado seu corpo por causa da doçura intolerável
(Segunda Consideração dos Sagrados Estigmas).

A meditação não procura – nem rejeita – tal experiência. Ela nos leva a profundezas para além do ego em que a experiência de Deus é possível e transcende todo desejo do ser consciente. Não estamos buscando a plenitude mística, mas a união no mistério do amor. O/a meditante precisa tornar-se um ferido que cura ao penetrar fielmente neste mistério de alegria e sofrimento, rejeitando todo escapismo e falsa consolação.

Esta fidelidade remove gradualmente a montanha do egotismo. É um partilhar a vida do Cristo, que é seu contínuo morrer e ressuscitar em nós.

Incessantemente e em toda a parte trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja também manifestada em nosso corpo (2Cor 4,10).

Quando deixamos também o Monte Alverne – para o próximo passo da nossa peregrinação individual – nós o fizemos alimentados pela comunidade que havíamos partilhado e as verdades que experimentamos na companhia uns dos outros. Este me pareceu ser o poder da comunidade que vem à tona com a meditação, e que tantos, hoje, estão ansiosos por sentir, muitas vezes sem o saber. Que a nossa prática diária contínua permita a cada um de nós participar na cura do nosso mundo.

COM MUITO AMOR, DOM LAURENCE

(*) Exte texto foi publicado na revista “Grande Sinal”, de propriedade da Província Franciscana da Imaculada Conceição e editada pelo Instituto Teológico Franciscano (ITF).  O texto desta meditação, tirado de Meditação Cristã – Boletim Internacional (23 Kensington Square – London W8 5HN – UK, fascículo de junho de 1998), foi gentilmente cedido a “Grande Sinal” pelo Núcleo de Meditação Cristã do Rio de Janeiro. Tradução a cargo de Maria Antonieta Garcia de Souza; revisão, Sérgio de Azevedo Morais.

Nota da Redação da Grande Sinal

Dom Laurence Freeman, OSB, mostra uma faceta fundamental da mística do Seráfico Pai, Francisco de Assis, portador dos estigmas de Jesus cristo, Trata-se de um tema que interessa, não só aos membros da Família Franciscana, mas a todos/as aqueles/as que desejam atingir a plena identificação com Jesus cristo, nosso Redentor, em sua dura paixão, morte infamante e ressurreição gloriosa. Até que um dia todos possam dizer, como Paulo: ‘Já não sou eu que vivo, mas é o cristo quem vive em mim”

Fonte: http://www.franciscanos.org.br

Impressão das Chagas de São Francisco: O perfeito amor de São Francisco ao crucificado

Frei João Mannes, OFM

No dia 17 de setembro celebra-se a festa da impressão das chagas de São Francisco de Assis. Os estigmas que Francisco recebeu em 1224, no Monte Alverne, após uma visão do Cristo crucificado em forma de Serafim alado, são sinais visíveis de sua semelhança à humanidade de Cristo, nos seus três modos: na vida, na paixão e na ressurreição.

Francisco encontrou-se pela primeira vez com o Crucificado na pequena Igreja de São Damião. Num certo dia, conduzido pelo Espírito, entrou nessa Igreja e prostrou-se diante da imagem do Cristo crucificado que, movendo de forma inaudita os seus lábios, disse: “Francisco, vai e restaura minha casa que, como vês, está toda destruída” (2Cel 10,5). E, conta-nos Celano, que Francisco sentiu desde então uma inefável mudança em si mesmo, pois são impressos mais profundamente no seu coração, embora ainda não na carne, os estigmas da venerável paixão.

No entanto, foi ao ouvir o Evangelho acerca da missão dos apóstolos (Mt 10, 7-13), que Francisco compreendeu o real significado da voz do Crucificado, e imediatamente exclamou: “É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu desejo fazer do íntimo do coração” (1Cel 8,22). Assim, sob o toque ou o apelo de uma afeição, começou devotadamente a colocar em prática o que ouvira, isto é, distribuiu aos pobres todos os seus bens materiais, bem como renegou-se a si mesmo para que, exterior e interiormente livre, pudesse ir pelo mundo e anunciar aos homens a paz, a penitência e, enfim, o amor não amado de Deus.

O amor que é Deus realizou-se na sua profundeza, largura e altitude na pessoa de Jesus Cristo. A encarnação, o estábulo, o lava-pés e a Eucaristia são expressões concretas do modo de amar como só o Deus de Jesus Cristo pode e sabe amar. Porém, foi especialmente ao entregar incondicional e gratuitamente a sua vida na Cruz, que o Filho de Deus revelou à humanidade que Deus é essencialmente caridade perfeita.

Francisco, por inspiração divina, abraçou pobre e humildemente a cruz de Jesus e deixou-se impregnar, arrebatar e transformar totalmente pelo espírito de abnegação divina. Isso quer dizer que a imitação de Cristo, por parte de Francisco, não é mera repetição mecânica dos gestos exteriores de Jesus, mas é manifestação de sua profunda sintonia com a experiência originária de Jesus Cristo: o Reino de Deus. Somente quem possui o Espírito do Senhor pode observar “com simplicidade e pureza” a Regra e o Testamento de São Francisco e realizar em si mesmo as santas operações do Senhor.

Na Terceira consideração dos sacrossantos estigmas considera-se que, aproximando-se a festa da Santa Cruz no mês de setembro, o pai Francisco, na hora do alvorecer, se pôs em oração, diante da saída de sua cela, e entre lágrimas orava desta forma: “Ó Senhor meu Jesus Cristo, duas graças te peço que me faças antes que eu morra: a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima paixão; a segunda é que eu sinta no meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal paixão por nós pecadores”(I Fioretti)). E, relata Boaventura que, enquanto Francisco rezava, “viu um Serafim que tinha seis asas (cf. Is 6,2) tão inflamadas quão esplêndidas a descer da sublimidade dos céus. E […] apareceu entre as asas a imagem de um homem crucificado que tinha as mãos em forma de cruz e os pés estendidos e pregados na cruz. […] Imediatamente começaram a aparecer nas mãos e nos pés dele os sinais dos cravos” (LM 13,3). Assim, Francisco transformara-se todo na semelhança de Cristo crucificado (cf LM 13,5). Pois, de fato, trazia Jesus no coração, na boca, nos ouvidos, nos olhos, nas mãos, nos sentimentos e em todos os demais membros (cf. I Cel 9,115), e conseqüentemente podia exclamar com o apóstolo Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

O Pobre de Assis, no seguimento de Jesus Cristo, perdeu a sua própria vida, mas recuperou-a inteiramente em Deus, de acordo com a palavra do Evangelho: “Quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 12,25). Todavia, Francisco não somente reencontrou a si mesmo em Deus, como filho de Deus, mas a todos os seres do universo. O Cânticodas Criaturas, que compôs pouco antes de sua morte corporal, é expressão jubilosa dessa intensa experiência eco-espiritual: “Louvado sejas meu Senhor, com todas as tuas criaturas”.

O pai Francisco tornou-se assim um mestre na sequella Iesu. De imediato despertou o fascínio de muitas pessoas e atraiu muitos discípulos e discípulas, entre as quais, Santa Clara. Clara e suas Irmãs, a exemplo de Francisco, também querem chegar ao cimo da montanha da perfeição do amor. A propósito subscrevemos parte do VII capítulo (Do perfeito amor de Deus) de um interessantíssimo opúsculo que Boaventura escreveu à abadessa das Irmãs, do convento de Assis, sobre A perfeição da vida:

“Não é possível excogitar um meio mais apto e mais fácil para mortificar os vícios, para progredir na graça, para atingir o auge de todas as virtudes do que a caridade. Por isso diz Próspero, no seu livro Sobre a vida Contemplativa: “A caridade é a vida das virtudes e a morte dos vícios”. Como a cera se derrete diante do fogo, assim os vícios perecem diante da caridade. Porque a caridade possui tanto poder que só ela fecha o inferno, só ela abre o céu, só ela dá a esperança da salvação, só ela nos torna dignos do amor de Deus. Tal poder possui a caridade que entre todas as virtudes só ela é chamada propriamente virtude. Quem a possui é rico, tem abundância, é feliz. […] E diz Santo Agostinho: “Se a virtude conduz a uma vida bem-aventurada, eu quisera afirmar em absoluto que nada é propriamente virtude senão o sumo amor de Deus”. Sendo, por conseguinte, o amor de Deus uma virtude tão elevada, cumpre insistir em alcançá-lo acima de todas as demais virtudes; porém, não um amor qualquer, mas só aquele com que Deus é amado sobre todas as coisas e o próximo por amor de Deus.

O modo de amar a teu Criador ensina-o o teu esposo no evangelho: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Repara bem, caríssima serva de Jesus Cristo, que amor o teu dileto esposo exige de ti. Quer o teu amado que ao seu amor dediques todo o teu coração, toda a tua alma, todo o teu espírito, de sorte que absolutamente ninguém em todo o teu coração, em toda a tua alma, em todo o teu espírito, tenha parte com ele. Que, pois, fará para amares o Senhor teu Deus realmente de todo o coração? Que quer dizer: de todo o coração? Vê como São João Crisóstomo ensina: “Amar a Deus de todo o coração significa não estar o teu coração inclinado a nenhuma outra coisa mais do que ao amor de Deus; não te comprazeres nas coisas desse mundo mais do que em Deus, nem nas honras, nem mesmo nos pais. Se, todavia, o teu coração se ocupar em alguma destas coisas, já não o amas de todo o coração”. Peço-te, serva de Cristo, não te iludas. Fica sabendo que, se amas alguma coisa, e não a amas em Deus e por Deus, já não o amas de todo o coração. Por isso diz Santo Agostinho: “Senhor, menos te ama quem ama alguma coisa contigo”. Se amas alguma coisa que não te faz progredir no amor de Deus, não o amas de todo coração. E se, por amor de alguma coisa, negligencias aquilo que deves a Cristo, já não o amas de todo o coração. Ama, pois, o Senhor teu Deus de todo o coração.

Não somente de todo o coração, mas também de toda a alma devemos amar a Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor. Que significa: de toda a alma? Vai dizê-lo Santo Agostinho: “Amar a Deus de toda a alma é amá-lo com toda a vontade, sem restrições”. Amarás, certamente, de toda a alma, se sem contradição e de boa vontade fizeres não o que tu queres, nem o que aconselha o mundo, nem o que te inspira a carne, mas aquilo que reconheceres como sendo a vontade de Deus. Amarás, de fato, a Deus de toda a tua alma quando por amor de Jesus Cristo entregares de boa vontade tua vida à morte, sendo necessário. Se nisto, porém, faltares, já não amas de toda a alma. Ama, pois, ao Senhor teu Deus de toda a tua alma, isto é, faze a tua vontade sempre em conformidade com a vontade divina.

Entretanto, não só de todo o coração, não só de toda a alma, deves amar o teu esposo, Jesus Cristo. Ama-o também de todo o teu espírito. Que quer dizer: de todo o teu espírito? Di-lo novamente Santo Agostinho: “Amar a Deus de todo o espírito, é amá-lo com toda a memória, sem esquecimento”. (in: Obras Escolhidas. Porto Alegre: EST, 1983, p. 433-435).

Fonte: http://www.franciscanos.org.br

Impressão das Chagas de São Francisco: Do Monte Alverne à irmã morte corporal

Os dois últimos anos da vida de Francisco foram um Calvário! Os problemas na Ordem continuam. Sobretudo, com divisões internas. Vimos há pouco como ele passou a comungar mais profundamente com o mistério de Deus pela prática da misericórdia e da paciência com os pecados dos frades. Francisco se retira no Monte Alverne. Lá, conversa com Deus, lembra-se do Crucificado e, assim, mergulha mais profundamente em seu mistério. Isto é, decide continuar amando seus irmãos, mesmo assim. E o que acontece? Vemo-lo totalmente identificado com Aquele que, na cruz, entregou a própria vida pelos amigos. Vemo-lo de tal maneira em comunhão com o mistério deste amor solidário e misericordioso de Deus que, de repente, as próprias chagas do seu Senhor lhe aparecem no corpo. Hoje se diria: A paixão de Cristo se somatiza na paixão de Francisco. Em outras palavras, escreve Alexander Gerken:

“O que mais crucificou Francisco durante os dois anos anteriores à sua morte foi a divisão da Ordem, que tinha crescido demais até para ele. Sofria vendo a desunião existente nela e como muitos de seus irmãos não podiam ou até não queriam seguir o ideal primitivo. O fato de não abandoná-los, de amá-los, e amá-los em sua fragilidade, ‘até a cruz’,constitui o conteúdo e a causa de sua experiência da cruz no Monte Alverne. O sofrimento pela Ordem lhe gravou as chagas e, a partir de seu amor crente, soube que eram as chagas do Crucificado, que não reteve para si sua própria vida, mas a entregou por todos nós”.

Francisco se sente realmente mergulhado no “segredo” de Deus, seu altíssimo Senhor e Rei, único Bem, referencial único para a construção de uma autêntica fraternidade humana. E, nesta experiência de comunhão total com o modo-de-ser do seu Senhor, consola seu inseparável companheiro Frei Leão, compondo este maravilhoso Hino de Louvor a Deus:

“Vós sois o santo Senhor Deus único, que operais maravilhas! Vós sois o Forte. Vós sois o Grande. Vós sois o Altíssimo. Vós sois o Rei onipotente, santo Pai, Rei do céu e da terra. Vós sois o Trino e Uno, Senhor e Deus, Bem universal. Vós sois o Bem, o Bem universal, o sumo Bem, Senhor e Deus vivo e verdadeiro. Vós sois a delícia do amor. Vós sois a Sabedoria. Vós sois a Humildade. Vós sois a Paciência. Vós sois a Segurança. Vós sois o Descanso. Vós sois a Alegria e Júbilo. Vós sois a Justiça e a Temperança. Vós sois a plenitude da Riqueza…”

Daí em diante, a vida de Francisco foi de atrozes sofrimentos, também corporais. Vivia esmagado por toda sorte de doenças e provações. Mas, ao mesmo tempo, provava incomparável alegria, pois, desse jeito, sentia-se mais e mais em comunhão com seu Senhor crucificado e, neste Senhor, em comunhão com o “coração” de Deus mesmo e, no “coração” de Deus, em comunhão com todos os crucificados da sociedade e todas as criaturas… Por isso, como sempre fora em sua caminhada de contínua conversão, Francisco canta e convida a cantar a grandeza infinita do amor de Deus. Desse Deus que “quis estar com os seres perdidos, os foras-da-lei, os publicanos e os pecadores”, que “conviveu com eles e sentou-se à sua mesa”. Desse Deus que “por fim morreu com eles a morte dos condenados. O Evangelho era esta realidade inaudita: a revelação de um amor divino que nada de humano justifica e que se oferece prioritariamente aos que não podem se prevalecer nem da estima do mundo, nem das posições que ocupam na sociedade, nem de sua riqueza, nem de seu sucesso social, nem mesmo de seus méritos ou de suas virtudes, mas que esperam tudo unicamente da graça de Deus”.

Francisco canta e convida a cantar. Sua vida transforma-se em poesia, porque expressa o sonho mais profundo do ser humano-e-de-Deus, sonho de fraternidade universal. Compõe o famoso Cântico das Criaturas, “o canto de um homem que, durante toda sua vida, trabalhou, lutou, sofreu para que houvesse um pouco mais de fraternidade entre os homens e para que aparecesse, enfim, na sociedade de seu tempo, a humanidade de Deus”. A partir da comunhão profunda com esta “humanidade de Deus”, é que Francisco e seus companheiros “aprenderam a olhar os seres e as coisas, ingênua e fraternalmente, com simplicidade e cortesia. Deixaram de vê-los sob o ângulo de seu valor de venda, para considerá-los como criaturas de Deus, dignos de atenção em si mesmos. Assim descobriram o esplendor do mundo, o esplendor das coisas simples. Seu olhar se deteve, maravilhado, nas realidades mais humildes, mais cotidianas, que eram companheiras de sua vida de pobres: a luz, a água, o fogo, o vento, a terra. Sim, a terra de todos os dias, a terra mãe. Como era bela a seus olhos esta terra, vista para além de toda ambição e de toda vontade de poder! Deixava de ser um campo de luta para tornar-se o lugar da grande fraternidade dos seres: ‘Nossa irmã a Mãe Terra”.

Francisco canta e convida a cantar e celebrar o Amor criador e redentor, sobretudo quando percebe aproximar-se o momento de sua máxima comunhão com o mistério do Deus pobre e solidário, o momento da morte. O momento da máxima experiência de pobreza, pois aí Francisco fará de verdade a experiência de não ser mais dono de nada, nem mesmo da vida. Francisco canta e dá as boas-vindas a esta que ele chama também de “irmã”. Ela é para ele “a porta da vida”. E para celebrar a chegada deste momento de comunhão absoluta com a Pobreza, pede inclusive que deixem seu corpo despido sobre o chão por algum tempo. “E assim chegou a hora”, escreve Tomás de Celano, concluindo: “Tendo completado em si mesmo todos os mistérios de Cristo, voou feliz para Deus”. E Boaventura: “Cumpridos, enfim, todos os desígnios de Deus em Francisco, sua alma santíssima livrou-se da carne para ser absorvida no abismo da claridade de Deus, e dormiu tranquilamente no Senhor”. Realiza-se nele o que havia pedido, parafraseando a oração do Pai-Nosso. “Venha a nós o vosso reino: para que reineis em nós por vossa graça e nos deixeis entrar no vosso reino, onde veremos a vós mesmo sem véu, teremos o amor perfeito a vós, a beatífica comunhão convosco, a fruição de vossa essência”.

Texto do livro “Herança Franciscana”, do capítulo “A experiência de Comunhão com o Mistério de Deus em Francisco de Assis”, de Frei José Ariovaldo da Silva, ofm.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br

Impressão das Chagas de São Francisco: Os estigmas de Francisco e os nossos


Ainda que em nós não foram impressos os estigmas do crucificado de modo visível, cada um tem suas feridas que podem salvar, que podem tornar-se fonte de salvação para si e para os outros. A cada um que se deixa ferir em nome de Cristo e que leva em si a sua cruz, Francisco repete o que disse a Leão: também tu estás marcado com a cruz de Cristo e por isso és abençoado. És um possuído de Deus e estás sob a proteção dele.


Leonhard Lehmann – Francisco, mestre de oração

Fonte: http://www.franciscanos.org.br

Impressão das Chagas de São Francisco

A impressão das Chagas

Frei Atílio Abati

Ao falar da paixão e morte do Senhor Jesus, por nos ter dado sua própria vida, São Francisco de Assis chegava às lágrimas. Daí sua exclamação de júbilo: “Que felicidade ter um tal irmão” (2CFi 56)!

Em 1224, no Monte Alveme, Francisco recebe os estigmas da paixão do Senhor, provavelmente, no dia de São Miguel Arcanjo, 29 de setembro.

A impressão das chagas, em seu corpo, não foi senão a coroação de toda uma vida. Desde o início de sua conversão, ele se deslumbrava ao contemplar o Cristo de São Damião, tão humano, tão despojado, tão pobre e crucificado. Por isso, este Cristo ocupa o lugar central de toda sua vida: “Não quero gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal 6,14).

Foi ante este Cristo, que compungido rezou: “Iluminai as trevas de meu espírito, concedei-me uma fé íntegra, uma esperança firme e um amor perfeito” (OrCr). E continua: “Nele está todo perdão, toda graça e toda glória, de todos os penitentes e justos” (RegNB 30).

A cruz, fonte de vida

Assim compreende-se porque na alma deste servo de Deus as chagas já estavam impressas desde o início de seu projeto de vida.

Francisco teve a sensibilidade de descobrir a face do Cristo Sofredor nos conflitos sociais, nos leprosos e nos marginalizados. Vê no Cristo Crucificado o servo perfeito, que aceita viver, sofrer e morrer para nos salvar.
Francisco passou por momentos de crise, mas não perdeu a chama da esperança e da confiança. Apesar das provações, sentiu-se cativado pelo Cristo. Ele sabia que o caminho para a glória passa pelo sofrimento. Sua opção de vida foi pelo caminho da renúncia, da doação e da cruz. Todavia, assumiu sua missão até as últimas conseqüências, porque o caminho da cruz é fonte de vida.

Francisco captou o profundo sentido da cruz e, por isso, sentiu-se envolvido pelo amor do Mestre que salva, que liberta e que impulsiona para a Ressurreição.

Francisco e o Cristo

Francisco vivia fascinado pelo Cristo, que veio para realizar a vontade do Pai e se fez obediente até morte, e morte de cruz. Aqui está a explicação por que Francisco usava o Tau. Este lhe lembrava a cruz, sinal de salvação, símbolo da vitória sobre o mal. Mais, a cruz torna-se símbolo e sinal da bondade e da misericórdia divinas.

Francisco ora ao Pai, pedindo provar no seu corpo as dores do Senhor Jesus e sentir tão grande amor pelo Crucificado como Ele sentiu por nós. As chagas em seu corpo não são senão a aprovação divina e a resposta ao seu ardente desejo de sentir em sua carne os sofrimentos do Crucificado. E de fato aconteceu. Francisco, assim, é açoitado cruelmente pelo sofrimento.

A recompensa do Pai

No Cristo crucificado, Francisco encontra toda vitalidade que lhe abrasava o coração, a ponto de transformar- se no Cristo estigmatizado. O Cristo pobre e sofredor, estava em seu projeto de vida. Seria Ele como uma auto-estrada a conduzi-lo, mais e mais, a uma profunda união com Deus, a ponto de, exteriormente, pelas cinco chagas, gravadas em seu corpo, assemelhar-se ao Cristo crucificado.

Sabemos, outrossim, que na alma deste santo, as chagas do Senhor já estavam impressas. E como Cristo foi recompensado pelo Pai, ressuscitando-o e vencendo a morte, Francisco, no Monte Alverne, também recompensado por Deus, em seu corpo, pela impressão dos estigmas de seu Filho Jesus Cristo. Isto é fruto de sua vida de fidelidade e de seguimento irrestrito ao Senhor.

Esta transformação interior e exterior, identlficando-se ao Cristo, fazia-o exclamar: “Pois para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fil 1,21).

Fazer a vontade de Pai

Em todas as situações, consoladoras ou dolorosas, Francisco procurava fazer a vontade do Pai: “Concede-nos que façamos aquilo que sabemos ser de tua vontade e queiramos aquilo que te agrada. E assim purificados e, interiormente abrasados pelo fogo do Espírito Santo, sermos capazes de seguir os passos de teu Filho Jesus Cristo e chegar a ti, ó Altíssimo” (COrd 50-52).

Gostaríamos de lembrar que, desde a Porciúncula, igrejinha de Nossa Senhora dos Anjos, berço da Ordem Franciscana, local de início de sua conversão concluída no Monte Alverne, Francisco fez uma caminhada lenta e progressiva, até sua total configuração com o Crucificado.

Para reflexão

01. Como justificar os estigmas de Francisco?
02. Os sofrimentos ligam-nos aos sofrimentos, à Cruz do Cristo. Como então aceitar a nossa cruz e os nossos sofrimentos?
03. Diante do Cristo crucificado, Francisco chegava às lágrimas. Que mensagem o Cristo da Cruz lhe deLva?

Texto para meditação (CFI5)

“E agora, anuncio-vos uma grande alegria e um milagre extraordinário. Não se ouviu no mundo falar de tal portento, exceto quanto ao Filho de Deus, que é o Cristo Senhor. Algum tempo antes de sua morte, nosso irmão e pai apareceu crucificado, trazendo gravadas em seu corpo as cinco chagas, que são verdadeiramente os estigmas de Cristo. Suas mãos e seus pés estavam traspassa- dos, apresentando uma ferida como de prego, em ambos os lados, e havia cicatrizes da cor escura dos pregos. O seu lado parecia traspassado por uma lança e muitas vezes saíam gotas de sangue”.

Do livro, “Francisco, um Encanto de Vida”, de Frei Atílio Abati, ofm, editora Vozes, 2002.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br

Impressão das Chagas de São Francisco: O Serafim do Amor

Realizei alguns retiros no Monte Alverne, na região da Toscana, onde Francisco vivenciou os estigmas. Lá, encontrei um monge budista. Quando perguntei o seu nome, ele respondeu: “Eu não tenho nome. Chamamos este lugar de encontro. Quero que você me chame Francisco”.

As boas fontes franciscanas dizem que, de repente, Deus tocou profundamente Francisco. Ele é um imitador perfeito dos caminhos do Senhor Jesus, e todo aquele que é marcado pelos dedos terríveis desse amor, a ele é impossível não trazer essas marcas em seu corpo. Teologicamente, espiritualmente, dizemos que o anjo, o Serafim alado, veio e marcou o corpo dele com aquelas chagas do Amado. E para sempre o amor tomou forma num corpo. Porque o amor estava no seu coração, e o que está no coração toma conta do corpo, da história, da vida e deixa marcas profundas.

As pessoas que se amam verdadeiramente vão ficando parecidas, não é mesmo? Às vezes observamos que, quanto mais velhos ficam nossos pais, mais se assemelham fisicamente. Naquele retiro eu queria entender o que significavam as chagas de Francisco. O monge me respondeu que, de acordo com sua cultura oriental, todas as nossas energias, o nosso potencial de amor, a nossa fonte do amor, brotam de dentro para fora, e não de fora para dentro. Ele disse que, em sua grande capacidade de amar, Francisco explodiu, seu coração se fez como o Sagrado Coração. O coração de quem ama muito faz assim: Pluf! Salta para fora. E o coração dele abriu-se em chagas, em estigmas. Enraizado naquela terra, naquele chão que ele conhecia e pisava, seus pés ficaram marcados com as chagas do Amor.

A concretude do amor estava nas suas mãos, nos seus pés. É nas extremidades vitais que circulam as energias mais poderosas. E foi aí que o amor transbordou na vida de Francisco. Penso que, quando amamos profundamente, todas as experiências humanas e religiosas nos marcam com as marcas profundas do amor. Quem dá o coração, recebe corações. Isso eu aprendi com Francisco, com o cristianismo e também com o budismo. Eu tenho um mestre taoísta, Chuang Tzu. Eu o leio com a mesma paixão que leio o Evangelho, com a mesma paixão com que leio as fontes franciscanas.

Do texto “Dançar o Amor”, de Frei Vitório Mazzuco F°.

Fonte: http://www.franciscanos.org.br

Impressão das Chagas de São Francisco: Que milagre é este?

Frei Hipólito Martendal

Há vários santos entre os católicos que apareceram portando estigmas, semelhantes às chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ultimamente parece que tivemos até um caso raro de um homem de Deus trazer por certo tempo as chagas e depois elas virem a desaparecer. Dizem que isto teria acontecido com o capuchinho de nossos dias, o Pe. Pio, agora São Pio.

Por outro lado, estamos por demais acostumados com a idéia de milagres como eventos extraordinários, operados instantaneamente, ou pelo menos, em tempo relativamente breve, onde as coisas acontecem de tal maneira que só podem ser atribuídas a alguma intervenção divina.

De minha parte, acredito que verdadeiros milagres podem ocorrer sem todos estes atributos considerados seus sinais inconfundíveis. Posso imaginar verdadeiros milagres sendo gerados aos poucos, lentamente, com recurso às forças naturais, mas que nunca poderiam acontecer somente apela atuação destas forças.

No caso de São Francisco, por exemplo, as descrições de seus biógrafos são espetaculares. O Santo, durante uma quaresma que celebrou em honra de São Miguel Arcanjo, na véspera, ou no dia da festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro), mergulhado em profunda meditação sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, tem uma visão deveras impressionante. Cristo lhe aparece como um homem crucificado, mas portando três pares de asas de Serafim. Francisco é arrebatado por um êxtase total. Aos poucos, sem ele sentir, as chagas de Jesus criam forma e implantam-se em seus membros e lado. Tomás de Celano, São Boaventura e o autor dos Fioretti descrevem-nas, bem como seu formato, a cor e a aparência dos cravos, em tudo de maneira muito semelhante.

O primeiro santo das chagas

Há algumas particularidades muito interessantes no caso de São Francisco. Ele é o primeiro homem na História a aparecer chagado. As descrições são concordes ao destacar o tamanho das feridas (eram grandes), estruturas semelhantes a cravos, com sangramentos intermitentes, principalmente na ferida do lado.

Outra característica muito forte em São Francisco era o destaque que dava à humanidade de Jesus. O último Natal, antes das Chagas, ele o celebrara em Greccio, quando pedira a um amigo que montasse a cena de Belém o mais semelhante possível ao que ele concebera, em sua imaginação poética, pois, dizia: “Quero lembrar a criança que nasceu em Belém e ver com meus olhos carnais as dificuldades de sua infância pobre, como ele dormiu na manjedoura e como, entre o boi e o burro, deitaram-no sobre o feno”. (São Francisco de Assis de Jacques Lê Goff, p.88).

Na quaresma em que foi agraciado com os sagrados estigmas, o assunto de meditações e contemplações fora a Paixão do Senhor. Por outro lado, quando se tratava de virtudes relacionadas à renúncia, à minoridade, à pobreza, ao servir, Francisco fazia questão de ser sempre o primeiro em tudo. O mesmo acontecia no desejo de imitar Nosso Senhor, no que se refere à pobreza e ao sofrimento. Queria ser o primeiro entre todos que desejasse viver como o Divino Mestre vivera. Além do mais, São Francisco era do tipo sensitivo, muito intuitivo, dado a sonhos e visões freqüentes, coisas que ele interpretava realisticamente como repostas divinas à sua incessante procura de Deus e da perfeição.

Agora vamos ao essencial que desejo oferecer à meditação do leitor. Em nossos dias, os estudos que procuram as conexões entre o que é mental e o que é corporal, entre o espiritual e o material, progrediram muito e têm descoberto coisas realmente interessantes. Os estudiosos afirmam que cerca de 80% dos transtornos físicos que incomodam o ser humano são de origem psíquica. Um desejo muito forte, uma emoção avassaladora, uma necessidade premente podem converter-se em sintomas físicos e doenças.

Dias atrás lia o caso de uma mulher que sofria de dores de cabeça lancinantes e contínuas e para a qual um batalhão dos melhores médicos não encontrava qualquer causa orgânica que explicasse. Só sabiam que depois de muitos anos de sofrimentos na companhia de um marido alcoólico e muito violento, conseguira a separação. Ele ameaçara suicidar-se, caso ela não voltasse. Ela não voltara e ele dera um tiro na própria cabeça!

Cópia perfeita de Cristo

Ora, fomos condicionados a ver somatizações só em doenças. E por que o fenômeno não poderia ocorrer como resposta sadia a desejos e emoções elevados e santos? Eu imagino que no caso de São Francisco tenha ocorrido exatamente tal fenômeno. Ele tinha uma capacidade rara de exprimir fisicamente seus estados de alma. Declamava, cantava, dançava, e encenava as alegrias mais espirituais. Vertia abundantes lágrimas de tristeza ao contemplar os sofrimentos de nosso Divino Mestre, ou simplesmente por pensar que “o Amor não é amado”. Estava firmemente disposto a não sofrer menos que sofrera seu Mestre e Senhor. Nos últimos anos de vida tivera ainda que contatar a realidade decepcionante de ver seus frades envolvidos em graves divisões e querelas por causa de seus próprios ideais de pobreza e minoridade, coisas que ele considerava revelações divinas e inquestionáveis. Isto constituía seu calvário que o aproximava ainda mais de Cristo.

Então, o milagre se deu, não por uma intervenção direta e violenta do sobrenatural em seu corpo, mas por um mimetismo divino, por uma somatização de seus desejos santos de ser como o Divino Mestre a quem ele queria copiar. E a cópia foi tão perfeita, que seus contemporâneos registraram para as gerações futuras que “São Francisco é outro Cristo”.

“O Senhor fez em mim maravilhas, santo é seu nome. A minha alma engrandece o Senhor, exulta meu esp….”

Fonte: http://www.franciscanos.org.br